sábado, 25 de dezembro de 2021

“O Jagunço Velho”: para entender o imaginário do Brasil

 

Em recente entrevista que fiz com o professor Erly dos Anjos, ele traçou um perfil interessante sobre o modelo de violência do Brasil urbano, no qual executores a mando dos chefes do tráfico representariam a continuidade de uma cultura que se criou nas fazendas dos antigos coronéis com seus jagunços e passou pelos crimes cometidos por pistoleiros de aluguel, empreendedores da morte, principalmente nos rincões do interior brasileiro.

Numa ilação minha, os chefes do tráfico do Brasil urbano representariam a continuidade dos coronéis do Brasil agrário da primeira metade do século passado, embora com outras nuances e características próprias daquilo que vivem – e morrem.

A leitura de “O Jagunço Velho”, do escritor baiano Araken Vaz Galvão, leva-nos de volta àquele Brasil dos coronéis por meio da história do jagunço Clemente, pau mandado do coronel Gumercindo Vaz Sampaio, cujo nome homenageia a família do autor com tal realismo que chegou a obrigar-me a consultá-lo se, por acaso, não seria o alterego do seu avô, em cuja fazenda Galvão foi criado depois de órfão de pai, em Jequié, sertão baiano, justamente o cenário de todo o drama do romance. “Não, meu avô e meus tios, mesmo sendo coronéis, eram santos”, respondeu-me o autor.

Desfeita a dúvida, vamos ao drama. Clemente é demais para ser assim pronunciado em sertanejês rudimentar, então vira Quelemente e, por fim, a corruptela Quelé, com a qual vai percorrer todo o livro, até perder o protagonismo para Agenildo, que ficou com a corruptela Nildo, seu quase filho – ou seria mesmo filho? –, a dúvida permanece.

Araken não perde em nada para os grandes romancistas sociais de nossa literatura, tais como Graciliano Ramos, Raquel de Queiroz, Guimarães Rosa, ao trazer-nos uma compreensão clara do “homo nordestinus”, bem como da sociologia e da paisagem do sertão brasileiro. Por vezes, faz longas viagens pela mitologia grega para construir sua trama como a nos apontar que o homem é o mesmo, seja na Grécia dos grandes filósofos ou na aridez do inculto sertão em que foi criado e do qual carrega suas marcas.

Quelé, o jagunço velho, ao mesmo tempo em que faz a coisa é também por ela feito. Matador, ou melhor, “consertador da coisa errada” (isso não está na obra, mas bem poderia estar), sempre a mando do coronel Gumercindo, guarda em si todos os dramas de ser humano, o que é revelado pelo episódio que vai lhe colocar no centro da narrativa, até que ao fim da vida deseja ser justiçado pela injustiça que teria cometido contra a história de seu “suposto” filho.

Para além da intertextualidade com os clássicos que permeiam a cultura ímpar do autor-narrador, como forma de colocar Quelé na história humana, com todas as suas contradições, Araken nos coloca também dentro da história do próprio Brasil, apontando-nos como bons ideais podem ser usurpados e seus atores protagonizarem novos interesses, como a pouco conhecida atuação dos tenentes dos anos 20 e 30 para destruírem a estrutura política brasileira, baseada no coronelismo, a mando do ditador Getúlio Vargas.

Os coronéis, com seus exércitos de jagunços, que perseguiram a “Coluna Prestes” até que seus homens se internaram na Bolívia, eram os grandes líderes políticos do Brasil arcaico, devidamente cooptados pelos líderes nacionais da primeira República até a Revolução de 30. Parece que a estrutura não mudou muito nos dias atuais, sendo substituída pelos donos dos partidos políticos da modernidade, mas jagunços já não há – mas assassinos da moral alheia, estes sim, proliferam. A ditadura varguista cuidou de usar os antigos tenentes para combater o poder dos coroneis, aproveitando sua experiência e conhecimento dos rincões nacionais. E, se o poder estava nos exércitos de jagunços, que eles fossem extintos.

Quelé representa essa figura mítica do jagunço desempregado, que termina a vida em meio a dramas existenciais e, conta a lenda, não morreu, mas foi arrebatado a algum tipo de céu nas garras de um enorme pássaro. Tudo isso narrado com o estilo, fantasticamente, realista do autor, leva o leitor a embrenhar-se na cena criada a partir da tradição oral do sertanejo, se é que até mesmo isso não seja uma ficção trazida à realidade por nossa imaginação.

Agenildo é uma espécie de filho gerado pela dramática história sertaneja no coração bruto de um jagunço e no peito dócil da moça defraudada pelo coronelzinho. Tudo tendo o coronel como o deus que governa a vida desses homens rudes, em obediência cega e eterna dependência emocional. E como o filho dessa história, pode ela reproduzir ou não, com sua amante dama-moça a governar-lhe a vida a partir da alcova, antes e depois do amor.

Araken Vaz Galvão é fecundo escritor, com quase 40 obras, que trazem sua experiência de vida do sertão ao exílio político, passando pela luta revolucionária contra a ditadura dos antigos tenentes. O que mais pode-se dizer de “O Jagunço Velho”, além de tecer-lhe loas? É finalizar lamentando que esteja tão longe do público leitor deste País, cada vez mais pobre de cultura, e que mereceria sair da limitada esfera da edição do autor para ganhar as melhores bibliotecas publicado por uma editora das grandes, com o devido marketing literário.

Quem disso duvidar, que seja caçado pelo mesmo gavião gigante que levou em suas garras o corpo moribundo de Quelé, mas que deixou em Agenildo plantado o amor sertanejo de pai para filho, independente do sangue que corre nas respectivas veias.

(José Caldas da Costa, jornalista e geógrafo, com estudos em Letras e Psicologia Positiva)

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

A música de Roberto Carlos que marcou a vida de Ayrton Senna: segredo contato em livro por Maciel de Aguiar, escritor capixaba

 

O escritor Maciel de Aguiar, 69 anos (11.02.1952), passou toda a pandemia recluso, como um hermitão, sem ver televisão, ou abrir sites noticiosos. Sabia da pandemia e se isolou dela, mas com um propósito claro: trabalhou 20 horas por dia para tirar de sua caixa de memórias e da caixa de papelão onde estavam guardados recortes de jornais e revistas, dezenas de fitas cassetes e cadernos de anotações, a história que traz a público no livro “Ayrton Senna – o herói do Brasil”, a ser lançado em dezembro, nos dias 1º, em São Paulo, com apoio do Instituto Ayrton Senna, e 3, no Rio de Janeiro.

Escrever dói, ainda mais quando se transforma num processo de reencontro com uma história que ele preferia esquecer e que tentou queimar, mas o vento não deixou. Isso mesmo. Depois da morte de Senna, Maciel, como milhares e talvez milhões de fãs, nunca mais viu uma corrida de Fórmula 1 e procurou esquecer o que viveu como num processo de cura da perda, que abalou o Brasil no dia 1º de maio de 1994. E mais: Maciel tentou queimar tudo o que havia guardado. Mas o vento da praia de Guriri não deixou.

São histórias por trás da História daquele que, depois de Pelé, foi o maior ídolo nacional, mas praticando um esporte longe de ser popular. E como pessoas que não tinham dinheiro para comprar uma bicicleta, quanto mais um carro, ou um carro esporte, que nunca entraram sequer num kart, podem ter se apaixonado pela Fórmula 1? A resposta é simples: Ayrton Senna da Silva, ou, como literalmente berrava Galvão Bueno nas transmissões da TV Globo, “Ayrton Senna do Brasil”.

Tudo começa para Maciel de Aguiar como começou para toda uma geração. “Nos anos 60 e 70, a gente gostava era de futebol. Não se conhecia outro esporte. Mas nos anos 70 o Emerson Fittipaldi começou a ganhar corridas e chamar a nossa atenção para a Fórmula 1. Mas veio aquela história de ter sua própria marca e os tempos de glória nas pistas se foram. Tinha ainda o José Carlos Pace, que era simpático, mas morreu cedo (num acidente aéreo em Mairiporã (SP), num monomotor em que viajava) e o Piquet, que era bom nas pistas, mas antipático. Então, surgiu Ayrton Senna... “, começou a contar Maciel de Aguiar.

Nossa longa entrevista de duas horas, feita com os recursos atuais da tecnologia, ele em seu autoexílio em casa em São Mateus e eu em Vila Velha, começou pelo meu interesse pela história da princesa africana escravizada Zacimba Zaba e do Museu Intercontinental AfricaBrasil, que está fechado há vários anos em São Mateus.

O BIÓGRAFO DOS NEGROS POBRES

Maciel de Aguiar conta 140 livros publicados, sendo 40 deles somente de personagens quilombolas de São Mateus. Alguns, porém, são grande sucesso editorial, o maior deles, simplesmemte, “Pelé”, que já está traduzido em 10 línguas diferentes.

“Escrever sobre Pelé foi conselho de Oldemário Touguinhó, com quem eu trabalhava no Jornal do Brasil. Eu escrevia sobre os negros de São Mateus e o Oldemário me falou: ´ninguém vai se interessar pela história de preto pobre, escreva sobre preto rico que todo mundo vai ler; você tem que escrever sobre o Pelé´. O resto é história e o resultado está no sucesso do livro, mas que me abriu portas para eu falar também dos pretos pobres de São Mateus”, observa Maciel.

Tem também “Nós, os capixabas”, “O Sabiá e eu”, sobre Rubem Braga, “Niemeyer – o gênio da arquitetura” e, o último antes da pandemia, “Roberto Carlos – as canções que você fez para mim”. Aliás, foi Roberto Carlos que o levou a Ayrton Senna. Não fisicamente, mas de maneira indireta. Como quase tudo na vida de Maciel, isso também não explicação lógica. Foi assim desde seu súbito interesse, ainda pré-adolescente, pelas histórias contadas pelos negros centenários no mercado do Porto de São Mateus, onde também ouvia histórias de prostitutas e de jogadores de capoeira.

“Eu estava colecionando histórias para o livro que havia decidido escrever sobre a trilha sonora da vida das pessoas. Como todo mundo no Brasil, de algum modo, tem Roberto Carlos em sua vida, eu decidi que reuniria essas histórias de pessoas que tiveram uma música deles a marcar suas vidas”, disse Maciel, que começou a colecionar essas histórias em 1969, quando tinha 17 anos. “Ouvi mais de 300 histórias: caminhoneiros, prostitutas, empresários, empregadas domésticas, jogadores de capoeira, religiosos. No final, muita gente citava a mesma música, ‘Detalhes’ na liderança, e decidi que faria o livro com 50 histórias”.

E onde Roberto entra nessa história do Senna? Calma, que vamos chegar lá, porque Maciel, como tantos de nós, brasileiros normais, começou a se encantar com Ayrton Senna quando o piloto começou a mostrar sua incrível habilidade nas pistas debaixo de chuva. Primeiro, na prova de Montecarlo, onde saiu em 12º lugar e foi ultrapassando um a um. “Quando ele estava para ultrapassar o Alain Prost e assumir a ponta, terminaram a corrida. Depois, veio a antológica prova de Estoril, em Portugal, em 21 de abril de 1985. A Tolleman havia dada uma oportunidade para ele, que era um predestinado, e havia ido para a Lotus. Quando ele ganhou Estoril, coloquei no meu radar acompanhar sua carreira e escrever um livro sobre todas as vitórias de Senna”.

Conheci Senna nesse ano de 1985. Ele iria estrear pela Lotus na prova de abertura da temporada, em Jacarepaguá. Eu trabalhava em O Globo, a Lotus fez uma exposição no BarraShopping e Senna iria fazer uma visita. Renato Maurício Prado era o editor de esportes e recebeu a informação. Não havia nenhum repórter na redação, eu era redator com experiência em reportagem. Então, fui escalado, junto com um fotógrafo chamado Vasco, para entrevistar Senna. E foi assim que tive a oportunidade de estar frente a frente e conversar com o que viria a ser o maior piloto brasileiro de Fórmula 1 de todos os tempos – ainda no início da carreira. E eu nem poderia imaginar isso.

A prova, dia 7 de abril, foi vencida por Alain Prost, da McLaren. Nelson Piquet, ainda o piloto brasileiro mais em evidência, abandonou a prova por quebra da suspensão. Senna também saiu falhas técnicas do carro.  

Maciel gravava os áudios de todas as corridas com um gravador perto da televisão. E guardava as que Senna ganhava. Começou a pedir aos seus amigos de bancas de jornais de São Paulo que guardassem exemplares do que saía nas vitórias do piloto brasileiro.

O ENCONTRO CASUAL COM O ÍDOLO

Mais uma vez o acaso trabalhou a favor de Maciel. Estava em Interlagos em 1991 para acompanhar uma das provas mais lembradas da carreira de Senna, quando sua McLaren-Honda quebrou quase todas as marchas, o que exigiu dele um esforço físico anormal, vencendo a prova “no braço”, mas fazendo tanto esforço que não conseguiu sair sozinho do carro.

“Eu tinha ido assistir à corrida, não tinha começado a escrever nada. Apenas estava juntando material. Tinha pedido o pessoal das bancas para guardar jornais e revistas da prova para mim. Recolhido tudo e parti para Guarulhos, onde pegaria um voo para Vitória. Um amigo jornalista queria falar comigo e marcou no aeroporto, porque iria ouvir uns alemães que viriam investir no Brasil. Ele me chamou e fomos para a sala vip. Enquanto ele entrevistava os alemães, eu fiquei ali sentado numa poltrona e decidi dar uma olhada nos jornais e revistas que havia adquirido sobre o GP de Interlagos”, conta Maciel.

Jornais e revistas espalhados em cima de uma poltrona, Maciel relata o que aconteceu a seguir e que mudou sua vida: “Entrou um cara na sala e nem olhei para ele. Sentou-se na minha frente, a uns dois metros de distância. Eu estava fixado nos jornais e só vi as pernas. Ele deu bom dia, eu respondi e nem olhei para a cara dele. Continuei separando os recortes”.

O “cara” sentado à sua frente viu aquele monte de jornais separados e comentou: “Você gosta de Fórmula 1 mesmo, hein?!” Quando levantou os olhos, Maciel custou a acreditar no que via: em sua frente estava, em carne, osso e simpatia, simplesmente, Ayrton Senna da Silva. E ainda teve presença de espírito para brincar: “Eu não gosto muito não, sou é fã de um tal Ayrton Senna. E ele devolveu: acho que já ouvi falar nele”.

Maciel começou a conversar com Senna e segurou a onda sobre sua ideia de escrever um livro. Afinal, ele nem sabia se o livro sairia, estava apenas juntando material. Quando Senna abriu a pasta 007 e pegou um walkman para colocar o fone no ouvido, lembrou-se de sua pesquisa sobre Roberto Carlos. “Eu vi logo em destaque a Bíblia dentro da pasta dele e resolvi fazer as duas perguntas padrão que fazia por onde andava: Você gosta de Roberto Carlos? Qual a música dele que marcou sua vida?”

´Gosto, como todo brasileiro´, respondeu bem ao seu estilo Senna. De repente, o piloto parou e falou: “Já dei centenas de entrevistas e ninguém nunca me perguntou isso. Eu tenho uma históriad e uma música de Roberto Carlos”.

Maciel conta que, naquela hora, “gelou”. “Qual é a história?”, devolveu. Senna, meio irônico, perguntou: “Você está com tempo?”. Para quem estava em busca de boas histórias, todo o tempo do mundo, até mesmo perderia o voo. Então, Senna contou que quando pilotava kart queria andar a 200km por hora, mas o kart dava no máximo 90km e ele ficava frustrado.

Maciel conta que Senna, então, contou a história da música: “Quando fui estrear na F1 andei a até mais de 200km por hora, mas, na primeira corrida que ganhei, quando cheguei a 200km eu, casualmente, me lembrei da música de Roberto”. E ainda hoje Maciel se emociona: “Bicho, de repente, em minha frente, o Senna cantarolando: eu vou, voando pela vida, sem querer chegar, eu vou sem saber pra onde, nem quando vou parar... “

“Ele era fabuloso. Perguntei: você já contou isso para alguém? E ele me disse que nunca falou de coisas antigas. Perguntei porque não falou na entrevista na tevê junto com Roberto Carlos e ele, simplesmente disse: ele não me perguntou e eu esqueci. Rapaz, ele contou a história e ficou contemplativo, olhando a pista do aeroporto. Até se emocionou. E eu fiz a pergunta que desmoronou o ídolo: qual sua velocidade preferida?”.

Segundo Maciel, naquela hora Senna ficou pensativo e falou: “Ninguém nunca me perguntou isso. Quem é você que me faz perguntas que jornalista nunca fez? Mas vou te revelar uma coisa que nunca falei antes: já andei a 300km por hora, quando o velocímetro bate em 200km por hora eu me sinto nas nuvens, é como se eu saísse de mim. Eu fico em transe”. Naquela altura, os dois já conversavam como dois velhos amigos. Aquele papo durou cerca de uma hora, conta Maciel de Aguiar.

“Na primeira corrida que ganhei, a música do Roberto me veio casualmente à mente e, quando recebi a bandeirada, cantarolei dentro do carro, eu vou voando pela vida... “, contou.

Senna ficou “encanado” com aquela história e Maciel falou que era escritor e ele perguntou sobre o que escrevia. “Escrevo sobre coisas emocionantes na vida das pessoas”, respondeu o escritor capixaba.

Maciel conta que Senna sorriu e apenas disse: “Você podia escrever sobre minhas vitórias”. Àquela altura, o escritor já estava juntando o material, mas não contou para o ídolo. Apenas disse que gostaria de escrever. “Fico feliz em saber, já está autorizado. Mas você conhece os bastidores? Sabe do que aquele (soltou um palavrão) do Balestre fez?” (o francês Jean-Marie Balestre cassou a superlicença do piloto depois que Senna o acusou de beneficiar seu compatriota Alain Prost no GP do Japão que encerrou a temporada de 1989 e quase comprometeu sua participação no campeonato de 1990)

O escritor ajudou com outro palavrão e ambos riram da situação. Como a conversa fluía, os assessores de Senna ficaram à parte, Senna pediu que Maciel, quando estivesse com Roberto Carlos, falasse da música “200km por hora” (o nome original da música é “120... 150...200km por hora”), “que marcou minha vida”.

Antes de se despedirem, Senna abriu a maleta 007 (“tinha uma Biblia, um alkman e algumas outras coisas, a Bíblia vi logo, estava bem em evidênica”), tirou um cartão de visita, anotou um número de telefone pessoal e escreveu atrás: superação, dedicação e gosto pela vitória. Suas últimas palavras foram: “Quando você escrever meu livro, para você não se esquece de que esta é a síntese de minha vida”.

“Nos despedimos, ele colocou o fone no ouvido e nunca mais nos vimos. Me entusiasmei e comecei a escrever ´Ayrton Senna, o herói do Brasil´. Eu já tinha muitas vitórias dele para escrever”.

1º DE MAIO DE 1994: “SENNA BATEU FORTE”

Mas tudo mudou em 1994 e por muito pouco o Brasil não ficaria sem essas doces histórias e a narrativa de Maciel, filhote do sabiá Rubem Braga, das grandes vitórias de seu maior piloto. Na manhã do domingo, 1º de maio de 1994, na curva do Tamburello, como narrou Galvão Bueno na época, “Senna bateu forte”.

“Eu tinha ido na padaria comprar pão e deixei tudo pronto para gravar. Começou a corrida, o Galvão naquela empolgação, Senna voando baixo. O ambiente estava pesado. O Rubinho Barrichelo escapou de grave acidente nos treinos de sexta-feira, o austríaco Roland Ratzenberger morreu no treino de sábado. Aliás, sobre isso há uma história muito sinistra”, conta Maciel.

E essa história somente ele soube quando, em 2020, quando chegou a pandemia e ele resolveu mergulhar para escrever o livro, ligou para um empresário amigo de São Paulo e falou que, depois de 28 anos, e de nunca mais ter assistido a uma corrida de Fórmula 1, estava pensando em retomar o projeto e terminar o livro das vitórias de Ayrton Senna.

“Foi então que ele me disse: então, vou te contar um segredo”, recorda-se Maciel de Aguiar. E o amigo empresário contou que, como de costume, ele e outros amigos se reuniram naquele 1º de maio de 1994, na casa de um sócio do pai de Senna, no Alto Pinheiros, para assistir a corrida. Era um hábito: eles comiam churrasco, bebiam e acompanhavam a prova.

“Ele me contou que, meia hora antes da prova, de repente, estavam todos na sala e entrou a mulher do empresário dono da casa, aos prantos, chorando em desespero. Todo mundo parou e a mulher falou: hoje o Aytron Senna vai morrer. Ele me contou que o copo caiu da mão, o marido saiu atrás dela querendo saber o que houve. O clima ficou pesado, muita gente foi embora. Como tinha morrido o austríaco na véspera, eles pensavam que ela falava daquele acidente”, relata.

Essa prova, de San Marino, foi marcada pela tensão. Logo na largada, um acidente envolveu vários carros, um pneu se soltou e feriu nove pessoas fora da pista. O safety car entrou na pista e manteve cada carro em sua posição enquanto dava voltas lentas. Na sexta volta, o safety car saiu da pista e liberou a prova. Na sétima volta, o carro de Senna não obedeceu aos seus comandos na curva do Tamburello e chocou-se direto com a mureta. “Senna bateu forte”, anunciou Galvão Bueno.

E Maciel continua contando o que ouviu do empresário: “Quando o Galvão falou aquilo peguei minha mulher, fui para casa e não consegui ver mais nada. Fui para o quarto. Foi quando minha mulher entrou no quarto e disse: Ayrton Senna morreu”.

O FOGO QUE O VENTO NÃO DEIXOU PEGAR

Foi o dia em que a terra parou para quem acompanhava a carreira espetacular do piloto brasileiro. Maciel conta que havia chegado com o pão e colocado para gravar a corrida. Quando ouviu o “Senna bateu forte” de Galvão Bueno, o escritor ficou tão angustiado que juntou todo o material perto da TV, colocou tudo na caixa, junto com tudo o que havia de Senna, lacrou e deixou num canto.

“Fiquei angustiado. Quando deu a tarde, confirmaram a morte dele. Veio o Fantástico à noite, a coletiva com a fala da direção da prova. Contam o momento da batida e revelam que o velocímetro travou na hora da batida. Advinha em que velocidade? A 200km por hora, nem um milímetro a mais, nem a menos. E eu me lembrei do que ele falou: a 200km por hora eu me sinto nas nuvens, parece que estou em outro plano”, emociona-se Maciel.

O escritor capixaba disse que “entrou em parafuso”. “Eu me desesperei. Era a única pessoa no mundo que sabia disso, ele não tinha falado com mais ninguém. Não vi mais televisão, não vi enterro, não vi nada. Cheguei à conclusão de que não tinha condições emocionais de escrever o livro. Não quero mais saber de Fórmula 1, em vou pirar. Peguei a caixa com os recortes de jornais, os textos escritos à máquina com 41 corridas e levei para queimar na praia. Peguei uma caixa de fósforos, dezenas de fitas cassetes, cadernos de anotações. Eu não tinha outra solução, estava pirando com tudo aquilo. Ele me falou: 200km por hora... peguei tudo, fui para Guriri. Gastei uma caixa de fósforos sem conseguir colocar fogo no material, porque o vento não deixava”.

“Tudo para mim era uma maluquice. Eu nunca ansiedade louca. Sem conseguir tacar fogo, coloquei tudo no carro e disse: lá no porto, com menos vento, eu queimo. Mas me distraí com alguma coisa e fiquei rodando com aquilo dentro do carro. Cheguei no porto, onde tenho os museus, e pedi ao menino que lavava o carro para limpar o carro para mim. Ele viu aquela caixa, tirou e guardou. E eu apaguei tudo de minha memória”, observa.


De novo entra Roberto Carlos na história. Depois de 25 anos, Maciel conta que ainda estava encrencado com o livro de Roberto Carlos, que ele tinha começado em 199. Andava atrás da irmã Fausta, que tinha cuidado de Roberto no educandário em Cachoeiro, quando ele era pequeno, porque achava que tinha algum segredo no medalhão que Roberto usava no pescoço”.

A história do medalhão, conto em outra oportunidade, mas o fato é que, antes de morrer, a irmã Fausta resolveu recebe-lo para contar o “segredo do medalhão”, e ele fez a pergunta da música de Roberto que mais marcou sua vida. E assim foi que ele fechou o livro de Roberto Carlos, com a música preferida de irmã Fausta como 49ª e a de Ayrton Senna da Silva como a 50ª de seu livro “Roberto Carlos – as canções que você fez pra mim”.

SALVO PELA EXPULSÃO DA GUERRILHA

Mas, afinal, que é esse escritor capixaba cercado de tantas coincidências que lhe ajudam a escrever seus livros? Para aguçar mais a curiosidade do leitor, vou contar: Maciel de Aguiar, nascido em 1951 em Conceição da Barra, mas criado em São Mateus, para onde a família se mudou quando ele ainda era pequeno, somente pôde escrever tanto, e contar tantas histórias, porque foi expulso da luta armada por seus antigos companheiros do PCBR – Partido Comunista Brasileiro Revolucionário.

Aos 16 anos, com dinheiro dado por um dirigente do partido, saiu de casa em São Mateus e foi para o Rio de Janeiro panfletar contra a ditadura militar. O pai, um velho marinheiro, que havia rodado o mundo e conheceu Rubem Braga na segunda guerra mundial, na Itália, quando Maciel tinha 10 anos perguntou o que ele queria ser: “Respondi que queria ser escritor. Ele perguntou o que eu queria escrever, e eu disse que queria ser cronista e poeta. Ele me disse que poeta eu poderia até ser, porque o que mais havia era poeta ruim, mas que cronista não seria, porque nunca conseguiria escrever como Rubem Braga”.

Então, quando aos 16 o menino disse que iria embora para o Rio, o pai somente disse: pode ir, o mundo é seu. E no Rio foi cooptado por um velho quadro do partidão, que era de São Mateus, para treinar guerrilha em São João do Meriti.

“Uma noite, eu estava na sentinela, deixei o fuzil de lado e fiquei escrevendo poesia. Veio um dos companheiros, pegou o fuzil sem eu saber e escondeu. No outro dia, me levaram a julgamento. Acho que naquele dia eles iriam me justiçar como exemplo aos outros. Questionavam que poesia era coisa de liberalismo. Mas uma companheira, Ranúsia, uma estudante de Medicina pernambucana, me defendeu e me salvou. Disse que poesia era uma forma de luta. Mas me expulsaram da guerrilha e eu fui atrás do Rubem Braga, para me ajudar a conseguir emprego”, contou.

A expulsão da guerrilha salvou sua vida. Dos quatro seus companheiros de ação no campo de treinamento e nas panfletagens, Vitorino Alves Moitinho, o Paulo Sérgio, que era Bahia, com passagem por São Mateus, e Ramiro Maranhão do Vale, o Motorista, morreram sob tortura na Barão de Mesquita; Ranúsia Alves Rodrigues, a Florinda, e Almir Custódio de Lima foram metralhados e carbonizados dentro do fusca vermelho placas AA 6969, o mesmo que usavam para as ações de panfletagem nas ruas do Rio de Janeiro.

Nilmário Miranda, que presidiu a comissão da verdade na Câmara dos Deputados, publicou  que os quatro foram assassinados na chamada “Chacina de Jacarepaguá”, em outubro de 1973, em ação de agentes da repressão. “Nilmário ficou com a versão dos militares”, garante Maciel.

(José Caldas da Costa é jornalista há mais de 40 anos)

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

"Idiotas" unidos jamais serão vencidos

Eu me lembro muito bem. Estava acho que na 7ª série (na época era 3º ano do ginasial), corria o ano de 1973, a ditadura comia solta sob Medice, o “simpático” Presidente da República flamenguista, estudava no Colégio Aristeu Aguiar, no Alegre, onde havia ocorrido, nos contrafortes do Caparaó, um movimento guerrilheiro poucos anos antes e não sabíamos de nada disso.

A cidade vivia novos tempos. No início dos anos 70, ganhou duas faculdades – a de Filosofia e a de Agronomia, então Escola Superior de Agronomia do Espírito Santo. Ambas fruto da mobilização de lideranças locais em torno de um governador que foi o primeiro indicado pelo regime militar: Cristiano Dias Lopes. Por isso, seu nome foi dado ao Centro Acadêmico da Esaes, hoje um Centro Universitário vinculado à Universidade Federal do Espírito Santo, com mais de uma dezena de cursos de graduação, outros tantos de Mestrado e Doutorado.

O curso de Agronomia foi reconhecido pelo Ministério da Educação, salvo engano, em 1975 e houve uma grande comemoração pelas ruas da cidade, patrocinada pelos estudantes, que tomavam banho na fonte da Praça da Bandeira e, mais que isso, buscavam em casa os professores e os atiravam com roupa e tudo dentro d´água. Eu vi tudo isso acontecer com esses olhos que a terra não há de comer tão cedo – a depender de mim.

Mais tarde, a Esaes foi federalizada e incorporada pela Ufes como Centro Agropecuário e foi ganhando corpo até ser o que é hoje, um grande centro de formação de profissionais espalhados pelo Brasil inteiro.

A Fafia, que continuou como autarquia municipal e hoje míngua, teve fundamental importância na formação de professores para as escolas não apenas do Sul capixaba, mas também para cidades mineiras ali pelas bandas do Caparaó. O polo universitário cresceu tanto que há uns dez anos começou uma discussão sobre a criação de uma universidade autônoma na cidade. Hoje, diante dos fatos recentes, já não me iludo com isso.

Quantos profissionais de destaque hoje no Brasil não deram seus primeiros passos na escola pelas mãos de professores formados pela Fafia ou não passaram pelas mãos de estudantes da Esaes e, depois, Ca-Ufes, que eram aproveitados como mão de obra nas salas de aula quando havia tanta carência de mestres na cidade!?

Sim, eu me lembro bem. Corria o ano de 1973. Márcio, um aluno grandão da Esaes, dava aula de matemática no Aristeu Aguiar e estava em minha sala. De repente, o diretor da escola adentra a sala (vou preservar sua identidade, em respeito à família), não sei o que havia acontecido no dia, dá um “sabão” na turma e nos chama de idiotas. Sim, aquela turma de 40 alunos adolescentes éramos uns idiotas.

Márcio fechou a cara e não falou nada. Quando o diretor saiu, e nós, com cara de, sim, idiotas, o Márcio, na autonomia do comando da classe, dirigiu-se a nós serenamente: “Vocês sabem o que é idiota? Isso é uma ofensa muito grave”. Cheguei em casa, e encontrei um dicionário surrado e fui consultar (não sei quantos o fizeram). Jamais esqueci o peso dessa palavra, ressuscitada pelo atual Presidente da República, eleito pela democracia que ele não parece valorizar.

Os “idiotas úteis” ajudaram a instalar o regime de 64, lutaram pelas Diretas Já, choraram Tancredo, derrubaram Collor e derrubaram Dilma, elegeram o Presidente atual e podem… ah, deixa prá lá.

José Caldas da Costa, jornalista (escrito em 18 de maio de 2019)